Quando pensamos no ensino de Geografia, muitas vezes nos vêm à mente mapas, gráficos e estatísticas. No entanto, o cinema é uma das ferramentas pedagógicas mais poderosas para compreender como o espaço geográfico é construído, vivenciado e transformado pelas relações humanas. O aclamado filme iraniano Filhos do Paraíso (Bacheha-Ye Aseman, 1997), dirigido por Majid Majidi, é um excelente exemplo dessa conexão.
Embora a narrativa gire em torno de uma trama simples e comovente — a perda dos sapatos da pequena Zahra por seu irmão Ali e a tentativa desesperada das crianças de compartilhar o único par restante sem que os pais saibam —, a obra oferece um retrato profundo e didático da geografia humana e física da cidade de Teerã, capital do Irã.
1. Geografia Física: O Meio Natural e o Ambiente Urbano
A localização geográfica de Teerã e suas características físico-naturais moldam diretamente a rotina dos personagens ao longo da narrativa:
Localização e Clima: O filme se passa no Irã, país do Oriente Médio (Ásia Occidental). O clima predominante na região de Teerã varia de árido a semiárido, caracterizado por invernos frios e verões secos e quentes. A urgência dos sapatos ganha um contorno ainda mais dramático devido ao frio e ao solo rígido das ruas.
O Relevo e os Montes Alborz: Ao fundo de várias cenas externas, destaca-se a imponente cordilheira dos Montes Alborz. Além de compor a paisagem visual, a topografia acidentada do sul da cidade — com ladeiras, ruas íngremes e calçamentos irregulares — exige um esforço físico constante de Ali, que precisa correr diariamente contra o tempo para trocar os sapatos com a irmã.
Recursos Hídricos e Saneamento: Nos bairros periféricos, chama a atenção a presença de canais abertos e sarjetas (os chamados jubs) ao longo das calçadas. Esses canais conduzem a água da chuva e do degelo das montanhas, sendo utilizados pela população para limpeza e lavagem de utensílios, evidenciando como os recursos naturais são aproveitados de forma rústica na infraestrutura urbana local.
2. Geografia Humana e Socioespacial: A Cidade Dividida
O conceito central da geografia humana presente no filme é a segregação socioespacial. A forma como a cidade de Teerã é estruturada reflete diretamente as desigualdades de classe da sociedade iraniana.
Destaque Didático: A cena em que o pai de Ali viaja para o norte da cidade acompanhado do filho para oferecer serviços de jardinagem demonstra claramente o contraste social. O deslocamento espacial funciona como uma transição entre "dois mundos" dentro da mesma metrópole.
3. Geografia Cultural e Espaço Urbano
A cultura é outro pilar essencial da geografia humana, e Filhos do Paraíso apresenta elementos marcantes do cotidiano islâmico e das tradições do Oriente Médio:
Organização do Espaço Escolar: O filme retrata a segregação por gênero na educação. Meninos e meninas frequentam a escola em turnos diferentes ou em edifícios separados, respeitando normas culturais e religiosas da sociedade iraniana.
Vestuário e Tradição: O uso de roupas modestas e do véu (como o hijab ou o chador) pelas mulheres em ambientes públicos ilustra a influência dos valores religiosos na ocupação e circulação do espaço urbano.
O Bazar Comercial: Os mercados tradicionais (bazares) aparecem não apenas como centros de compra e venda, mas como o coração da vida social e da circulação econômica do bairro.
Redes de Solidariedade: Apesar da escassez financeira, o espaço comunitário da periferia favorece laços intensos de vizinhança, ajuda mútua e compartilhamento no pátio coletivo.
Conclusão: O Filme como Ferramenta de Leitura do Mundo
Assistir a Filhos do Paraíso sob o olhar geográfico nos permite compreender que o espaço urbano não é apenas um cenário neutro, mas o resultado das interações entre o meio natural, as decisões políticas, a economia e a cultura de um povo. Para alunos e educadores, a obra de Majid Majidi prova que por trás de uma história simples de amor fraterno existe uma aula completa sobre as paisagens, os territórios e as dinâmicas sociais do nosso mundo.